Leopoldo e Ernesto Berger: encadernação de pai para filho

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Conheça a trajetória do mestre encadernador Ernesto Berger. Uma história de família, que começou em uma oficina em Viena e continuou no Brasil, onde o ofício foi passado de geração a geração

Ernesto Berger (1923-2006) foi um dos principais encadernadores do Brasil. Suas obras luxuosas estão presentes em acervos e coleções importantes do país. O ofício, ele aprendeu com o pai, Leopoldo, que emigrou da Áustria para o Brasil no início do século XX. Sua arte, ele desenvolveu ao longo de anos de prática, estudo e aperfeiçoamento.

Foi na oficina de encadernação de Léo Schacht, em Viena, que Leopoldo conheceu Sidonia, mãe de Ernesto. Ela era uma das filhas de Schacht, encadernadores de longa data. Leopoldo era aprendiz de seu pai. Casaram-se. Em uma entrevista a um jornal brasileiro em 1959, Leopoldo disse: “O meu mestre de encadernação foi Léo Schacht, com cuja filha acabei casando. Foi o prêmio que ele me deu pela minha aplicação”. Em 1912, o casal desembarcou no Brasil, com passaportes do Império Austro-Húngaro, fugindo das agruras da guerra que se anunciava na Europa.

Instalaram-se no Rio de Janeiro, onde tiveram e criaram três filhos: Paulo, que se tornaria médico; Julio, corretor de seguros, e Ernesto, o único que seguiria o ofício do pai.

Leopoldo montou uma próspera firma de encadernação e papelaria, com a qual sustentava a familia. Em 1938, escreveu um dos primeiros manuais de encadernação lançados no Brasil: Manual prático e ilustrado do encadernador (Riedel & Cia, Rio de Janeiro – relançado em 1957 em terceira edição, esgotadas as duas anteriores, pela editora Ao Livro Técnico). O livro registra uma extensa bibliografia de mais de 200 volumes, em 12 idiomas diversos.

O encadernador colaborava também com várias revistas especializadas estrangeiras, como a Allgemeiner Anzeiger für Buchbindereien, editada em Stuttgart. Em outubro de 1956, a revista publicou um artigo de Berger com o título "Contribuições para a história da encadernação no Brasil", fazendo um panorama dessa arte no país. A revista dedicou algumas páginas para a publicação de seus trabalhos, como a encadernação de o Selvagem, de Couto de Magalhães, encadernado em estilo marajoara.

Berger revelou certa vez que aprendeu o português lendo jornal. “Quando rebentou a guerra, como austríaco, eu queria ler os telegramas. Lia o jornal [Correio da Manhã] do princípio ao fim. Os telegramas sempre são mais fáceis de ler e compreender. Com um pequeno dicionário na mão, fui penetrando os mistérios da língua. E acabei aprendendo.”

Além de dar aos filhos uma boa educação e formação cultural – eles estudaram na prestigiosa Escola Alemã do Rio de Janeiro – Leopoldo, grande conhecedor de literatura e música alemã, incutiu em Ernesto o amor e a curiosidade pela bela encadernação.

“Meu filho aprendeu comigo, desde pequeno”, declarou Leopoldo em uma entrevista. “Gosta da profissão como eu. Isso me dá uma grande alegria, pois sei que, depois de minha morte, ainda haverá alguém, no Rio, que tenha verdadeiro amor à sua arte e saiba trabalhar com paciência e cuidado.”

Ernesto passou a trabalhar com o pai, em sua oficina, no Rio de Janeiro. Em matéria publicada no Correio da Manhã em 2 de outubro de 1949, a jornalista Yvonne Jean relata sua visita a Leopoldo e Ernesto Berger para a composição de sua reportagem “Experiências de arte decorativa no Rio”. Diz ela: “Encontrei dois artistas cujo trabalho me parece interessante descrever aqui. Completam-se, pois o primeiro é um técnico admirável, impregnado dos ensinamentos tradicionais, o segundo é um artista de espírito mais pessoal e moderno. O Sr. Leopoldo Berger e seu filho, Ernesto, têm uma oficina perto da praça Tiradentes. Nesse bairro, no qual a maioria dos sobrados são tristes e empoeirados, criaram um pequeno atelier agradável, arejado e ordenado, no qual se sente um amor profundo ao seu trabalho.”

À repórter, Leopoldo falou sobre o ofício: “Engana-se quem pensa que encadernação é uma profissão fácil de aprender. A encadernação é uma arte de verdade, e arte não se adquire assim tão depressa!” Quando perguntado sobre quanto tempo é preciso para formar um verdadeiro encadernador, ele respondeu: “Cinquenta anos! Uma vida inteira.”

A oficina dos Berger abrigava a coleção de livros especializados que Leopoldo – e depois, Ernesto –, foram reunindo ao longo da vida. “Aqui encontrará tudo que foi escrito de bom no mundo sobre a nossa arte que já possui uma longa tradição”, explicou Leopoldo, em 1949. “Aprendi a profissão na Áustria, mas é na França que existem os maiores encadernadores”, disse ele. “Tenciono ir à França para ver de perto o que lá fazer”, acrescentou Ernesto Berger, “entusiasmado”, segundo a jornalista.

 

Arte e Bauhaus

Leopoldo sempre estimulou Ernesto a manter contato com os amigos deixados na Europa – muitos deles fizeram parte do importante Ateliê de Encadernação da Escola de Artes Aplicadas da Bauhaus, na Alemanha. Ernesto se correspondia com os amigos encadernadores do pai e recebia deles as obras que constituíam sua valiosa biblioteca de "livros sobre livros", como ele dizia.

Tendo como base as técnicas de encadernação clássica conhecidas como alemãs, Ernesto foi se especializando, ao longo da carreira, com o que se convém chamar de encadernação de luxo.

Na década de 1950, Ernesto teve um novo mestre, o encadernador suíço Anton Dakitsch (1919-1993), que havia sido contratado pelo governo brasileiro para montar o currículo e a programação dos cursos de encadernação e douração em escolas profissionalizante – escreveu, ao todo, mais de onze livros e apostilas. Ávido por novas informações e encantado com os livros que Dakitsch fazia, Ernesto tornou-se seu aprendiz particular, e Dakitsch o iniciou na Kunst Binderei, a encadernação de arte.

Ernesto começou, a partir daí, a oferecer esse tipo de serviço de luxo a seus clientes. Recebia encomendas dos principais colecionadores do país – embora alguns deles preferissem dizer que “mandavam encadernar seus livros em Paris”, para parecerem mais chiques.

 

Exposição na Biblioteca Nacional

Em 1959, Leopoldo e Ernesto Berger foram notícia em vários jornais, com a abertura da mostra "Exposição da Arte de Encadernar", realizada na Biblioteca Nacional entre 17 e 23 de setembro de 1959. A mostra trazia obras de pai e filho, que a organizaram, ao lado da encadernadora Maria Goldring, além de trabalhos de Agripino Siqueira Campos, Walter Faria e Berenice Madaleno e os douradores Orlando L. Alcantara e Sebastião Almeida.
Um dos destaques da exposição, segundo reportagem publicada no jornal Correio da Manhã de 18 de setembro de 1959, foram as capas de livros gravados por Fayga Ostroyer em tecidos estampados em roxo, branco, amarelo e preto.

 

Assinatura e homenagem

Ernesto trabalhou na empresa do pai até sua morte. Para homenageá-lo, assinava as encadernações com seu nome. Era uma homenagem que prestava a Leopoldo por emulação de seu ídolo Marius Michel (1846-1925), ilustre encadernador e dourador francês, que fizera o mesmo no final do século XIX, assinando como o pai, Marius Michel (1821-1890), dourador que trabalhara para os grandes encadernadores de sua época.

A homenagem, porém, gera confusão até hoje. Muitas das encadernações artísticas de Ernesto Berger são erroneamente creditadas ao pai, Leopoldo Berger, por conta da assinatura em seu nome. Para especialistas, porém, é fácil identificar os trabalhos de um e outro, pelo estilo das encadernações de Ernesto. Leopoldo, até por ter atuado a vida toda na firma, fazia encadernações de uso corrente, além de pastas e fichários, atendendo aos pedidos de sua clientela.
 

Irmão de Ernesto, o médico pediatra Paulo Berger também foi influenciado pela paixão por livros da família. Pesquisador entusiasmado, ele catalogou centenas de ex-libris brasileiros, reunindo uma das principais coleções do gênero. Publicou também o livro A tipografia no Rio de Janeiro: impressores bibliográficos, 1808-1900 (Cia. Industrial de Papel Pirahy, 1984), no qual fez um estudo sobre as tipografias do Rio de Janeiro de 1808 a 1900. Nesse livro, fez a seguinte reflexão: “Iludem-se os que preveem o fim das artes gráficas com o surgimento do computador. Desconhecem o gosto de curtir um belo livro ‘com os cinco sentidos’ como dizia o imperador D. Pedro II. Acarinhar um belo exemplar, bem impresso e bem ilustrado, em bom papel, há de constituir sempre um prazer insubstituível a espíritos sensíveis”.

Paulo era frequentador dos chamados “Sabadoyles”, encontros voltados à literatura na casa do advogado Plínio Doyle (1906-2000), cujas famosas atas eram assinadas em livros encadernados por Ernesto Berger. O próprio Doyle sempre recorria a seus serviços para encadernar volumes de sua coleção. Hoje, essa biblioteca de 25 mil obras está conservada na Fundação Casa de Ruy Barbosa.

Depois da morte de Leopoldo, a família se desfez da empresa no centro do Rio de Janeiro e Ernesto passou a trabalhar particularmente – só aí começou a assinar com seu nome. Mudou-se para Friburgo, e só descia a serra para entregar os livros para clientes ou levar volumes para o dourador.

No final da vida, preocupado em não ter passado sua técnica para ninguém, começou a dar aulas. Eram poucas alunas, para quem Ernesto ensinou, pacientemente, tudo o que sabia. Faleceu, aos 83 anos, em decorrência de problemas cardíacos. Sofreu seu primeiro enfarte dentro do ateliê, enquanto dava aula. Morreu fazendo o que mais amava.

 

Por Graziella Beting e Marisa Garcia de Souza, aluna e amiga de Ernesto Berger

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